Chronologia Kairológica

material educativo

material educativo (lâminas em .pdf)

O “pensar o tempo” não possui um espaço ou meio específico. Encontramos referências importantes nas áreas da geografia (fusos horários são importantes, mas há muito mais de tempo na geografia que imaginamos), da biologia (há estudos bem interessantes sobre o comportamento animal que inevitavelmente nos faz questionar o quanto nosso corpo responde ao tempo), da física, da matemática (não sou uma conhecedora das exatas, mas não há como excluir a importância dos estudos destas áreas sobre o tempo como uma grandeza para o entendimento deste em outros âmbitos), da educação física (quem nunca se perguntou por que cada jogo tem uma marcação temporal?), da história (a relação entre tempo e memória é encantadora), da filosofia (um adendo aqui me faria passar horas falando sobre o tempo e a duração), da literatura (quando mais procuro, mais textos encontro sobre o tempo. Por agora o que ocupa meus minutos de leitura entre um ônibus e outro é “O tempo envelhece depressa” de Antonio Tabucci), e por aí vai, não vou tomar o fôlego do leitor com parágrafos longos e descontrolados como fez Tabucci muitas vezes comigo, brincando com os adendos temporais na leitura. E então chegamos ao que quero realmente dizer com isso, que o tempo é pensado e discutido de diversas formas e nesta exposição, como no processo de várias produções contemporâneas, o tempo encontra um ninho formado por tantas referências que é quase impossível se esgotar num ponteiro ou ponto final.

É importante pensar que quando temos uma questão a resolver buscamos conversar sobre ela e encontrar outros que também a estão pensando. Seria impossível separar da minha formação enquanto artista o meu lado de pesquisadora e de historiadora da arte. Não me satisfaço pensar apenas que existe um tempo que posso observar e materializá-lo em obra, mas me corroo de curiosidade em saber o que já foi também pensado sobre o tempo. Então que da proposta surgem as leituras, anotações e pensamentos a serem materializados. A pesquisa como meio de processo criativo me exige fazer acréscimos entre as tantas vírgulas e domínios do conhecimento. Surge neste espaço a possibilidade de dialogar com o material educativo escrito por mim para a exposição Chronologia Kairológica e distribuído pela Galeria Homero Massena aos professores. Sem mais esticamentos, trago algumas produções contemporâneas que aos poucos fui identificando como pensadoras direta ou indiretamente do tempo.

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On Kawara (1933) Artista conceitual japonês. Mora em Nova Iorque desde 1965. Desde 04 de janeiro de 1966, On Kawara executa suas “Date paintings”, em que pinta em tela a data do dia, em letras brancas sobre fundo chapado. Apesar de parecerem impressões de tamanha regularidade, as pinturas são feitas à mão. On Kawara - Date paintings

As cores de fundo variam, há 8 padrões de tamanho da letra e a orientação sempre horizontal. Em alguns dias On Kawara faz mais de uma pintura. Se ele não consegue finalizá-la no mesmo dia, ele imediatamente a destrói, afinal, já é outro dia, outra pintura. A data é sempre documentada na linguagem gramatical e convenções do país em que a pintura é executada (Esperanto é usado quando a primeira língua de um determinado país não usa o alfabeto romano). Quando a pintura data não é exibida, ela é colocado em uma caixa de papelão feita sob medida para a pintura, com um recorte de um jornal local da cidade em que o artista fez a pintura. Ainda eram registradas em um diário e marcadas num calendário. As pinturas que registram a passagem de Kawara já por 112 cidades, já conhecem seu fim. O que nos leva a um de seus outros trabalhos que lidam com o tempo. A “Máquina de tempo”. Esta obra nos faz ter uma consciência ainda maior da passagem do tempo. Um contador online que usa as séries de pinturas de datas, começa desde a primeira, no dia 04 de janeiro de 66, reproduzindo a aparência das pinuras em fundo preto, com conclusão na data de morte de Kawara, quando será acrescentada uma nova variável no código fonte do programa para finalizar a conta e reiniciá-la. O que não deixa de nos fazer pensar numa ideia cíclica da vida.

Sam Hsieh (1950) performer taiwanês, vive nos Estados Unidos. Realiza uma série de cinco performances em Nova Iorque que tem a duração marcada de 1 ano cada – “One Year Performances”. A primeira, realizada entre 29 de setembro de 1978 a 30 de setembro de 1979, o artista se trancou numa gaiola mobiliada apenas com um lavatório, luzes, um balde e uma cama de solteiro. One Year Performance 1978–1979, Life Image

Durante este ano ele não estava autorizado a falar, a ler, a escrever, ou a ouvir rádio e TV. Um advogado, Robert Projansky, registrou em cartório todo o processo e fez com que o artista nunca deixasse a gaiola durante esse um ano. Um amigo veio diariamente para entregar comida, remover os resíduos do artista, e tirar uma única fotografia para documentar o projeto. Além disso, esse desempenho foi aberto para ser visto uma ou duas vezes por mês entre 11h e 17h. O aprisionamento certamente modifica nossa relação com o tempo. Que horas seriam? que dia seria? em que momento Robert chegaria para tirar minha foto?

Sua segunda performance vai de 11 de abril de 1980 a 11 de abril de 1981 (observe o tempo reduzido entre cada performance…). Hsieh registrou em um relógio de ponto sua passagem pelo dia, registrando a horas em uma fotografia. tehching-hsieh-one-year-perfomance-fotoshsieh hsieh 2

Apresentada integralmente na última Bienal de São Paulo (30ª), além do relógio de ponto e os cartões de marcação das horas e das fotos tiradas, havia um vídeo de 6 min reunindo o material, que evidenciava ainda mais a passagem do tempo pela mudança dos cabelos do artista neste período. Quando discutimos sobre tempo é difícil localizá-lo apenas num argumento. Claramente a rotina do artista estaria controlada pelo tempo, pelo tempo da máquina imposto na performance por ele mesmo. Mas o que significa o relógio de ponto em nossa sociedade?…. Não nos estenderemos para as outras performances, mas é importante salientar como nossas decisões de aproveitamento do tempo geram consequências.

Yves Marchand & Romain Meffre
Ruínas transitórias. As fotografias de Yves Marchand e Romain Meffre, artistas franceses nascidos na década de 1980, tratam de ruínas urbanas. Em 2010 os artistas reúnem numa publicação uma série de fotografias tiradas desde 2005 sobre as ruínas em Detroit. Lida-se com os vestígios do sonho americano em uma antiga capital da indústria automobilística dos EUA. Yves Marchand & Romain Meffre - as ruínas de Detroit (Packard Motors Plant)Yves Marchand & Romain Meffre - as ruínas de Detroit (Ballroom, American Hotel)

A abordagem, enraizada na memória das ruínas, traz uma verdadeira identidade de captação de um tempo perdido. Entre o fechamento de milhares de fábricas de Detroit transformadas em um verdadeiro deserto, coloca-se o peso de uma história recente, de um declínio iniciado nos anos 1940. Paisagens desumanizada, de objetos abandonados, congelados. Em todas essas imagens há um silêncio, um grande silêncio que esmaga o espectador.

William Kentridge (1955), artista sul africano que atualmente expõe na Pinacoteca de São Paulo. É interessante que quanto mais procuramos o tempo, mais o encontramos (não se reconhece sem conhecer). Esta foi a última exposição que fui neste mês, antes da abertura da Chronologia Kairológica. Foi inevitável acrescentá-lo como um diálogo possível. Em meio a seus questionamentos políticos e sociais, o tempo fica marcado na obra de Kentridge nos rastros do carvão. [cf. o vídeo “Felix in Exile“]william kentridge felix in exilewilliam kentridge, felix in exile

 São borrões de apagamento que adensam a passagem do tempo. É o refúgio para um tempo lento. Fica-se o rastro do tempo, marcado naquele que o entende. Que o viu pelo caminho. Para outros, são novos espaços sobre rastros. [Ligação com o livro de Tabucci, do rastros entre as histórias, mas que na falta de intimidade do leitor, não nos permite ter certeza da ligação entre os contos. E para que certeza? Assuntos fortes como a delicadeza do rastro do tempo. Daquele que respiramos sem perceber.]

Alexey Titarenko (1962, Rússia). Nas fotografia “Cidade das sombras”, Alexey Titarenko mostra uma multidão unida em massa fantasmagórica, lugares despovoadas vazios ou cheios. Tornados sombras, aqueles que caminham imersos no domínio do tempo cronológico, não se deixam diferenciar. Alexey-Titarenko-City-of-shadows-1Alexey-Titarenko-City-of-shadows-3 1992-1994Alexey-Titarenko-City-of-shadows-5Alexey-Titarenko-City-of-shadows-8

O estilo muito pessoal Alexey Titarenko foi inspirado pelas limitações técnicas da fotografia francesa do século XIX. A cidade de São Petersburgo aparece como palco das sombras, mas ele também trabalhou em Veneza e Havana, cidades cuja atmosfera histórica intensifica o caráter atemporal de suas imagens. A longa exposição torna as imagens frágeis e fantasmagórica. A nostalgia parece marcar a histórica desta série. Movimentos que reuniram multidões e se mostram como relíquias de um tempo perdido. Fantasmas de um passado, de sombras errantes.

Lais Myrrha (1974, Minas Gerais). A relação do seu trabalho com o tempo esbarra com as marcações cartográficas. Temos em “Onde nunca anoitece”, 2009, a delineação de um mapa-múndi a partir de marcações feitas por um relógio que corresponde ao encontro de um meridiano com um paralelo e que marca seu respectivo horário. Lais Myrrha onde nunca anoitece 2 Lais Myrrha onde nunca anoitece Lais Myrrha onde nunca anoitece

Cada relógio está programado para despertar no amanhecer do dia no local que representa. A convenção do fuso horário, e a convenção de escravidão do tempo, não importa onde, faz com que nunca anoiteça, pois sempre há alguém que está acordando.
Em “Uma Biblioteca para Dibutade”, 2006, tem-se uma série de fotos de paredes que apresentam marcas deixadas por livros e estantes. A cada mudança do espaço, uma marca do tempo e da memória. [cf. resenha]. imagesCAXKFMWV

Em “Compensação dos Erros“, 2007, a artista apresenta um vídeo em plano sequência que mostra a tentativa de fazer um desenho de observação a partir dos números que aparecem no mostrador de um relógio digital. lais1Entretanto, a rapidez com que os números se modificam, a própria rapidez e diluição entre fronteiras do passado e presente, impede que o desenho seja completado. Desenhando, apagando e tornando a desenhar, o vídeo termina após uma hora, coincidindo com o instante em que o desenho é totalmente apagado. Por fim, trago aqui “O tempo corre para o norte”, 2008, da série Insólitos-Estáveis. Trata-se de um objeto em que a artista para o tempo, localiza-o ao norte com o auxílio de ímãs e limalhas de ferro.

untitled

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